quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Candidatos ao governo do Rio de Janeiro falam sobre as principais questões ligadas à Educação

por: Equipe do Educar para Crescer

FERNANDO GABEIRA (PV) x SÉRGIO CABRAL (PMDB)


Por Mariana Estarque

Fernando Gabeira e Sérgio Cabral (fotos: Divulgação)

É consenso entre os dois principais* candidatos a governador do Rio de Janeiro que a indicação política de diretores de escola é um problema grave no Estado. Sérgio Cabral, 47 anos de idade, ex-deputado estadual e senador, atual governador, declarou ter descontaminado a Secretaria e cargos intermediários, mas que o trabalho está longe de ser finalizado. Fernando Gabeira, 69 anos, o mais votado deputado federal do Estado em 2006, acusa a gestão atual de manter essa prática nociva e sugere a criação de um comitê técnico para a escolha de diretores. Ambos concordam também com a importância de valorizar o magistério, melhorando as condições de trabalho do professor e pretendem avançar no ensino profissionalizante e reformular o Ensino Médio, aproximando-o das propostas do Ministério da Educação.

O desafio, porém, não é pequeno. Como lamenta Gabeira, “O IDEB do meu Estado está, infelizmente, no penúltimo lugar do Brasil, apesar de sermos a segunda economia do País”. Ele pretende, se eleito, concluir a municipalização do Ensino Fundamental, o que permitiria ao Estado focar no Ensino Médio. E defende uma formação mais pragmática dos professores, incluindo disciplinas menos abstratas, voltadas para os problemas reais da profissão. Sérgio Cabral aposta no aumento salarial do magistério e na melhoria das condições físicas dos prédios escolares, com instalação de aparelhos de ar condicionado e sistemas de som como fatores que levam à melhoria dos indicadores de desempenho.

Outro ponto importante do programa de Cabral é a inclusão digital e a distribuição de laptops para alunos e professores. Para o candidato, premiar os mais esforçados é uma forma de estimular os estudantes e a meritocracia. Além disso, o acesso à tecnologia complementaria a formação do professor. Gabeira diz acreditar que a inclusão digital e a modernização das escolas é fundamental e promete que algumas medidas levadas a cabo por Cabral nesse setor serão continuadas em seu eventual mandato. Mas o candidato do PV critica seu concorrente por apresentar a distribuição de laptops como uma solução mágica, esquecendo-se de outras políticas importantes e usando-a como propaganda política.

Veja como foram abordados esses e outros temas nas entrevistas concedidas individualmente pelos candidatos. As perguntas foram formuladas pelos conselheiros do Educar para Crescer. Os entrevistados não tiveram acesso antecipado às perguntas.

*Pesquisa IBOPE realizada entre os dias 27 e 29 de julho de 2010. Sérgio Cabral (PMDB): 58%; Fernando Gabeira (PV): 14%; demais candidatos: 2% ou menos das intenções de voto cada. Branco ou Nulo: 12%; Indecisos: 11%.

No Brasil ainda temos cerca de 15 milhões de mulheres e homens acima dos quinze anos de idade que não conseguem, por serem analfabetos, ler o lema da própria bandeira nacional: Ordem e Progresso. Na sua eventual atuação como governante, que ação fará para não consolidar essa injusta e vergonhosa ironia cívica?

Pergunta elaborada por: Mario Sergio Cortella, filósofo, ex-secretário municipal de Educação de São Paulo, doutor em Educação, professor da PUC-SP

Fernando Gabeira – O Estado vai fazer a ação no sentido de combater o analfabetismo, procurando fazer avançar esse processo. Mas em sintonia também com os órgãos federais e municipais, uma vez que a questão do analfabetismo não é a principal no momento. Não quero dizer que não seja importante. A principal no momento para o Estado é reformular o Ensino Médio e avançar no ensino técnico e profissionalizante. Mas nas 1,1 mil escolas municipais que estão sob comando do Estado vamos fazer o máximo e também campanhas de alfabetização para os setores que ainda estão fora desse nível mínimo.

Sérgio Cabral – O governo do Estado tem um trabalho muito forte na oferta do EJA (Ensino de Jovens e Adultos), que enfrenta essa questão do analfabetismo de maneira muito importante. Além disso, o próprio reforço da política de Educação impede que esse número aumente. Claro que o Estado do Rio, comparado a outros Estados do Brasil, tem um percentual mais privilegiado, mas ainda temos desafios nessa área.

O bom administrador sabe que a criação de indicadores, definição de metas e acompanhamento das mesmas são condições básicas para uma administração aceitável. Há alguns anos foi criado um indicador nacional para a educação que é o Ideb, bem como metas para seu acompanhamento. Mesmo assim, quase nenhum governante se compromete objetivamente com tais metas ou, o que seria melhor, estabelece suas próprias metas de forma mais agressiva. Dito isto, gostaria de saber: o senhor sabe qual é o Ideb do seu Estado? Sabe quais são as metas do Ideb para o seu mandato?

Pergunta elaborada por: David Saad, executivo de Relações Institucionais Sociedade Beneficente Israelita Brasileira

Fernando Gabeira – O Ideb do Estado do Rio de Janeiro está, infelizmente, no penúltimo lugar do Brasil, apesar de sermos a segunda economia do País. Nós estamos apenas na frente do Piauí. Nós consideramos o que acontece no Rio de Janeiro uma visão clara da falência do governo atual no campo da Educação, uma vez que ele não conseguiu mover um algarismo no Ideb do Rio de Janeiro.

Sérgio Cabral – De fato, o Ideb do nosso Estado está longe do ideal, um décimo abaixo da média nacional exigida. Entretanto, ele parou de cair. No plano da Educação, as ações são de médio e longo prazo. Nós pegamos aqui uma política de terra arrasada e os primeiros quatro anos foram de recuperação do valor do professor, que ainda está em curso, por um salário melhor. Há 12 anos o magistério não tinha reajuste, até a nossa chegada, em janeiro de 2007. Nós estamos com uma política de reforço salarial. Compramos mais de 50 mil laptops visando todos os professores em sala de aula. O acesso a banda larga é pago pelo Estado. Pois acreditamos que uma forma de recuperar o tempo perdido é a inclusão digital. Também há a recuperação física dos prédios escolares, que estavam caindo aos pedaços. Hoje já são 70% das 1,3 mil escolas com ar condicionado em todas as salas de aula, com uma estrutura de som para o professor falar sem gastar suas cordas vocais. Nesse momento, estamos com o professor Vicente Falconi, um estudioso e o maior consultor de gestão do Brasil, exatamente elaborando um projeto de metas para a Educação. Mas não era possível estabelecer nenhuma política de metas para a Educação sem que essas condições básicas fossem dadas. E nós concluímos esses três anos e sete meses de governo indicando essas condições. Elas não estão completas, mas houve um grande esforço de recuperação delas, valorização do magistério, reestruturação dos prédios escolares, agregação de valor da Educação pública para o aluno.

O senhor sabe quais são as metas do Ideb para o seu mandato?

Fernando Gabeira – Não. Estou estudando. Nós vamos incorporar as metas do Ideb no nosso mandato, não creio que sejam muito diferentes das metas que nós temos hoje.

Repórter – Os números para o Ensino Médio, são: 3,1 para 2011, 3,3 para 2013 e, enfim, 2015, que não contempla o próximo mandato, 3,7.

Fernando Gabeira – Pois é. É como eu disse, nós trabalhamos com as metas do Ideb e vamos tentar alcançar as metas. No entanto, não queremos ficar presos às metas do Ideb, porque o Rio de Janeiro tem uma necessidade muito grande de andar mais rápido nesse campo. Nós temos uma demanda muito grande, cada vez maior, de profissionais qualificados, que precisam ter uma boa Educação.

Sérgio Cabral – Nós estamos, nesse momento, estabelecendo as nossas metas. Estamos bem próximos da meta do Ideb, mas isso seria um resultado muito medíocre. Precisamos de algo maior. Estamos construindo junto com o magistério, com o professor Falconi e com a Secretaria de Educação, para que o alcance de uma boa posição no ranking seja a tradução de uma qualidade de Educação maior para os nossos alunos, que não são poucos: mais de 1,2 milhão de alunos.

O senhor se compromete com essas metas ou com metas mais agressivas para o Ideb?

Fernando Gabeira – Nós nos comprometemos com metas mais agressivas, embora elas ainda não tenham sido fixadas. Entendemos que o Rio de Janeiro, que hoje está em penúltimo lugar no ranking nacional, precisa dar um salto e recuperar o tempo perdido. E isso depende de uma série de medidas. Não basta dizer “eu aceito as metas do Ideb, vou superá-las”. Precisa de uma série de medidas que nós pretendemos desencadear para que isso aconteça.

Sérgio Cabral – Isso. Exatamente. Nós vamos concluir as metas ao final desse semestre para lançar antes da abertura do ano escolar de 2011.

Quais são as ações objetivas que o senhor, hoje, pode dar certeza absoluta que fará, caso eleito, para atingir essas metas?

Fernando Gabeira – A primeira coisa é aumentar o investimento. Melhorar a situação dos professores, procurar uma reforma no currículo do Ensino Médio para torná-lo mais acessível, em sintonia com o MEC, com matérias optativas. Interferir nas faculdades que formam professores para fazer com que eles tenham uma preparação mais pragmática do que têm hoje. Os professores, de um modo geral, aprendem muito sobre filosofia, sociologia, uma série de temas abstratos e que muitas vezes não faz com que eles possam dar boas aulas. No ensino profissionalizante, atrair profissionais para dar algumas aulas, para que contribuam com esse processo. Esse conjunto de fatores são é o que pode impulsionar a Educação. Mas também vamos querer acompanhar a performance dos professores. Faremos com que os professores sejam submetidos a um tipo de monitoramento para poder contribuir com eles naquilo que for necessário. Em certos casos, contribuir até com a colocação de mais uma pessoa para ajudá-los em sala de aula, como esta sendo feito em São Paulo.

Repórter: E como se daria esse monitoramento?

Fernando Gabeira – Seria uma supervisão. As pessoas seriam supervisionadas em certo momento em suas aulas para sabermos até que ponto essas aulas estão tendo resultado. E também seriam supervisionadas a partir do resultado que os alunos obtêm naquela classe. Teríamos uma visão da performance do professor e, assim, poderíamos estabelecer uma tentativa de melhorá-lo.

Sérgio Cabral – Sem dúvida continuar a valorização do magistério, não só a valorização salarial, mas a requalificação do professor. Para dar uma ideia para o leitor o que significa a luta pelo tempo perdido na Educação do Rio, posso dizer que nós incluímos no magistério do Rio 30 mil novos professores. Isso é mais do que os que foram contratados nos últimos dez anos antes da nossa chegada. Tínhamos carências gravíssimas de professores em várias matérias e ainda temos, mas em um percentual com alguma razoabilidade. Era uma coisa escandalosa. No primeiro semestre de 2007, as matérias dos jornais eram “não tem professor”. O segundo ano de governo, 2008, também foi terrível. Em 2009, melhoramos e, em 2010, avançamos, chegando a esses 30 mil professores. E certamente vamos ter que colocar mais professores. Essa é uma área que a gente não pode parar de valorizar em salário, quantidade e qualidade.

Considerando que o professor é peça chave para a melhoria da qualidade do ensino, como o candidato pretende articular a formação dos professores com a prática da sala de aula para que haja um efetivo impacto na qualidade?

Pergunta elaborada por: Maria Alice Setubal, socióloga, diretora-presidente do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária), integrante do Conselho de Administração da Fundação Abrinq e do Conselho do Programa Comunidade Solidária.

Fernando Gabeira – Um aspecto fundamental é a formação do professor. Vamos tentar introduzir nos cursos voltados para ele um pouco mais de pragmatismo e de ligação com a matéria que vai lecionar. E também pensamos na possibilidade de supervisionar o trabalho deles e estimulá-los a cumprir metas.

Sérgio Cabral – É exatamente valorizando, como ocorre quando a gente compra um laptop para ele e oferece o acesso a banda larga, quando põe uma sala de aula com ar condicionado, dando condições físicas e um sistema de som para que ele não canse as cordas vocais, quando a gente valoriza também o aluno. Nós temos um programa hoje, por exemplo, que é pioneiro no Brasil: “Cinema para Todos”, com o qual mais de 300 mil alunos já foram às salas de exibição de cinema patrocinadas pelo governo, gratuitamente, com filmes nacionais. É um sucesso. O professor vê que o aluno, que é o desafio dele, também está sendo tratado com dignidade. Independentemente do plano de metas, acreditamos muito na promoção do mérito. Estabelecemos metas para os alunos, já. Porque antes do Ideb, do Enem, nós temos um sistema que implementamos em parceria com a Universidade Federal de Juiz de Fora, muito reconhecida nessa área de gestão educacional. É um programa para a avaliação estadual dos nossos alunos, chama-se Saerj (Sistema de Avaliação do Estado do Rio de Janeiro), realizado em novembro. Na última avaliação, em 2009, nós anunciamos que daríamos mil laptops para os primeiros colocados de cada ano em português e matemática. E foi muito interessante. Muitos ficaram céticos, achando que não ia acontecer, mas nós entregamos os laptops e temos informações de que a turma está muito motivada. É preciso, sim, oferecer condições iguais para todos, mas também tem que premiar aqueles que se esforçam mais. Essa é uma mudança que eu acho muito importante na cabeça de alunos e professores: o esforço pelo mérito.

Há quem defenda a implantação da política de bônus como forma de reconhecer o mérito do professor. O senhor acredita que esta seja a melhor política para reconhecimento de mérito docente? Se não, qual seria o caminho?

Pergunta elaborada por: Mozart Neves Ramos, presidente-executivo do Todos Pela Educação

Fernando Gabeira – Tem vários fatores, mas muitas vezes pode-se estimular também financeiramente. Compensações financeiras em função da performance encontram uma dificuldade muito frequente, porque a corporação em geral exige que se universalize todos os benefícios e isso tem que ser negociado com o próprio movimento dos professores. A motivação principal se dá através de um governo que está voltado e empenhado para a Educação. Há outros mecanismos de compensação, além do financeiro, que são reconhecimento do trabalho do professor. Em São Paulo há uma compensação financeira, aqui no Rio já houve uma tentativa. Mas evidentemente que isso implica também em cursos de atualização, possibilidade de se renovar, equipamento adequado. É um conjunto de fatores que complementa a possibilidade de compensação financeira, é um processo combinado em que o bônus é apenas um fator.

Sérgio Cabral – No caso de São Paulo, há uma política de bônus, com remuneração, que foi implementada recentemente. É um caminho. Minas Gerais também tem políticas de bônus. Temos políticas de bônus na área da segurança que estabelecemos com o consultor de gestão Vicente Falconi no segundo semestre de 2009 e que surtiu grande resultado. Os índices criminais estão caindo no Estado. Não vejo como uma má idéia, não.

As avaliações nacionais mostram que um dos maiores desafios da educação brasileira sob a responsabilidade dos estados é o Ensino Médio, que apresenta indicadores ruins tanto de desempenho dos alunos como de cobertura. Cerca de 20% dos jovens brasileiros entre 15 e 17 anos estão fora da escola. Entre os que conseguem concluir o ensino médio, apenas 9% desenvolvem as competências e habilidades esperadas ao final da educação básica. O que o senhor fará no seu estado para melhorar o ensino médio?

Pergunta elaborada por: Maria Helena Guimarães de Castro, ex-presidente do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) e ex-secretária da Educação de São Paulo

Fernando Gabeira – O Ensino Médio é a principal preocupação no Estado. A performance do Rio de Janeiro é desastrosa. Vamos fazer todo o possível para avançar. Inclusive tentando passar progressivamente para as prefeituras algumas das 1,1 mil escolas primárias básicas que temos. A transferência das escolas básicas para a prefeitura vai permitir que o Estado concentre mais a sua atenção na sua tarefa principal, que é o Ensino Médio, e que precisa de ações como um exame do currículo, novo tipo de formação dos professores, estímulo, etc.

Sérgio Cabral – Tudo que temos feito: requalificar o professor, valorizar o aluno, gerar um ambiente de conforto para o aluno dentro do prédio escolar. Porque é preciso agregar valor ao colégio e torná-lo agradável para a meninada. Hoje o mundo oferece tantos atrativos, como a lan house, e o colégio duela com mais alternativas para o garoto do que na minha época. Ainda tem a praia, o campo de futebol, que continuam sendo muito fortes. Mas hoje tem “n” alternativas lúdicas para o adolescente. Acredito muito na combinação do Ensino Médio profissionalizante. Não é o “Médio técnico”, que é bacana, mas sim o “Médio profissionalizante”. Temos investindo muito nisso no Estado. Aquele menino que está concluindo o Ensino Fundamental ou o Médio tem a possibilidade de ser marceneiro, torneiro mecânico. Temos feito isso com um programa chamado CVT (Centros de Vocação Tecnológica). É um sucesso.

Quais os planos para garantir a ponte entre a escola e o mercado de trabalho?

Pergunta elaborada por: Wanda Engel, superintendente executiva do Instituto Unibanco

Fernando Gabeira – Existem várias possibilidades que devem ser desenvolvidas. O Rio de Janeiro tem um projeto de desenvolvimento que depende enormemente de mão-de-obra especializada e está localizado em dois campos: da indústria de petróleo e do turismo. No primeiro campo, nós estamos importando trabalhadores, porque não há cursos de formação. Pretendemos centralizar a formação em sintonia com a empresa de petróleo para garantir esses trabalhadores que são necessários. Simultaneamente, desenvolver os cursos no campo do turismo, que representa uma outra importante atuação econômica do Estado. Podemos e devemos desenvolver estágios em algumas empresas, convidar profissionais para que deem aulas, estejam presentes na formação das pessoas. E também, em alguns casos, levar os alunos às empresas, para que eles conheçam o processo na prática.

Sérgio Cabral – A qualificação do aluno e fazer com que, cada vez mais o profissionalizante se aproxime do Ensino Médio. E também, claro, o fortalecimento da qualidade do Ensino Médio, permitindo que aquele que quiser seguir um curso superior possa fazê-lo. Outro dia recebi um garoto maravilhoso da escola Henrique Lage, que era uma escola abandonada em Niterói e agora é uma escola que forma meninos e meninas no Ensino Médio de alta qualidade com formação técnica profissionalizante. Eles saem formados em especialidades da indústria naval. Esse garoto me disse: “Governador, me formei lá, arrumei emprego na empresa CBO, de navios, e estou cursando o ensino superior, estou fazendo Engenharia”. Ter o profissionalizante é também para aquele que tem ambição de continuar um curso superior. Estudou, teve uma profissão, foi trabalhar e fez um curso superior.

Como equalizar o currículo do Ensino Médio atendendo à necessidade tanto do jovem que quer entrar na universidade quanto do que quer ir para o mercado de trabalho?

Pergunta elaborada por: Wanda Engel, superintendente executiva do Instituto Unibanco

Fernando Gabeira – Por questão do tempo previsto para a entrevista, esta pergunta não foi formulada ao candidato, que tratou de questões do Ensino Médio nas respostas anteriores

Sérgio Cabral – Esse é o grande desafio. Acho que mais do que isso, atualizar de maneira inteligente. Porque o que se vê é que, quando um menino da classe média alta do Rio de Janeiro ou de São Paulo vai fazer o high school no exterior, tem um choque de currículo. Por quê? Porque a primeira coisa que se pergunta é “Humanas? Exatas?”. E, se a resposta for ”Humanas”, vai ter um enorme percentual de carga horária em humanas: Português, Geografia, História, Sociologia, Filosofia, Teatro. E vai ter uma carga menor em Física, em Química, Matemática. Você balança o currículo de acordo com os interesses do menino.

Como pensa em estimular a atratividade da carreira docente junto aos jovens concluintes do Ensino Médio?

Pergunta elaborada por: Ângela Dannemann, diretora da Fundação Victor Civita

Fernando Gabeira – Por questão do tempo previsto para a entrevista, esta pergunta não foi formulada ao candidato, que tratou de questões do Ensino Médio nas respostas anteriores

Sérgio Cabral – A primeira coisa é salário e depois, evidentemente, as condições de trabalho, porque é no boca a boca, que nem qualquer outra coisa. As pessoas vão comentar as melhorias nas condições da profissão e, assim, estimular os demais.

O que o senhor pensa sobre dar maior autonomia administrativa-financeira para diretores de escola, com a participação da comunidade de pais de alunos como controle?

Pergunta elaborada por: Ângela Dannemann, diretora da Fundação Victor Civita

Fernando Gabeira – Eu acho que é uma saída no Rio de Janeiro, mas que precisa ser precedida de uma outra: a recuperação das diretorias de escolas que estão hoje nas mãos de indicados de deputados. As escolas do Rio de Janeiro foram politicamente ocupadas por deputados e pessoas ligadas ao governo. Para que possamos garantir essa administração financeira, temos que inaugurar um novo método de escolha de diretores, que não seja político, como está sendo feito agora, mas que envolva talvez um comitê técnico responsável que possa avaliar os principais candidatos. Porque a eleição direta também não tem sido a melhor das alternativas. Ela cria dentro das escolas um certo clima de rivalidade e pouca cooperação.

Sérgio Cabral – Isso é basicamente o que eu herdei aqui. São mecanismos frágeis, que dão uma falta de controle preocupante. Estamos estudando mecanismos de como compatibilizar exatamente essa autonomia com algo que é um dever nosso, o controle. É muito comum você encontrar numa mesma cidade, ou em bairros vizinhos na cidade do Rio, ou em cidades do interior, uma escola em que os alunos estão indo bem, está tudo direitinho, em que a diretora é cuidadosa, está tudo limpo, e outra escola que é uma “zona”. Como é possível? Os valores dos repasses são iguais. Então esses instrumentos de controle é o que nós estamos perseguindo.

O que o senhor fará para melhorar a formação de diretores? Pensa na criação de cursos universitários para formação de diretores de escola?

Pergunta elaborada por: Gustavo Ioschpe, economista da G7 Investimentos, especialista em Educação

Fernando Gabeira – É possível que diretores de escola venham de universidades, mas alguns possivelmente virão das próprias escolas. Nós queremos é garantir o critério da competência e da honradez em todos os cargos colocados. Isso já vai significar uma mudança muito grande no Estado. A segunda mudança é criar um comitê que possa realmente escolher entre os candidatos, garantindo que o escolhido seja o mais qualificado.

Sérgio Cabral – Nós temos hoje um convênio com a Universidade Federal de Juiz de Fora exatamente para a gestão escolar.

O senhor se compromete a não fazer indicações políticas para o cargo de diretores de escola? Como eles serão selecionados?

Pergunta elaborada por: Gustavo Ioschpe, economista da G7 Investimentos, especialista em Educação

Fernando Gabeira – Sim, é exatamente contra isso que eu estou lutando no Rio de Janeiro.

Sérgio Cabral – Me comprometo. Eu tenho pavor dessa história. Nós já conquistamos plenamente isso na Saúde, na Segurança, nas Finanças e na Educação. Estamos no caminho certo.

A maioria dos estudos empíricos demonstra não haver correlação entre gastos em educação/salários de professores e aprendizados dos alunos. O senhor aceita este achado ou acredita que devemos investir mais para obter melhor qualidade de Educação?

Pergunta elaborada por: Gustavo Ioschpe, economista da G7 Investimentos, especialista em Educação

Fernando Gabeira – Há aqui no Rio de Janeiro uma escola municipal que teve excelente performance sem que se tenha feito muito investimento nela, de forma que é possível dizer que não há uma relação direta entre investimentos e boas performances. Mas, nas escolas que têm boas performances, estou absolutamente seguro de que o investimento vai fazer com que elas sejam melhores ainda. Então nós não consideramos o investimento o único fator. Pelo contrário, achamos que é necessário uma adesão do professor ao projeto de ensino. Mas, em certo momento, melhoria de condições é fundamental.
Sérgio Cabral – Eu rejeito isso. Acho um absurdo. É evidente que salário não é tudo, mas salário é fundamental. Isso aí é conversa de quem não quer pagar bem ao seu empregado.

Quais políticas do governo atual na área da Educação serão mantidas? Quais serão revistas ou aprimoradas (e de que maneira) e quais, eventualmente serão abandonadas?

Pergunta elaborada por: Ana Lúcia Lima, diretora executiva do Instituto Paulo Montenegro

Fernando Gabeira – A principal política a ser abandonada é a nomeação de apadrinhados para a direção das escolas. Uma política importante é uma melhoria da relação com os professores e o envolvimento deles no projeto de ensino. Não existe hoje essa boa relação entre governo e magistério.

Repórter: Como seria essa interface entre os professores e o Estado?

Fernando Gabeira – Através da discussão, da presença. Não é um mistério. Não se consegue boa relação sem se comunicar. Existe uma política hoje de distribuição de laptops e de melhoria de equipamento que será mantida, mas com outras características. Não será mais uma visão de distribuir os laptops como substituição das outras políticas. Vamos manter exatamente uma política de equipar as escolas, mas procurando não ver na distribuição de laptops uma solução mágica para os problemas que nós temos.

Sérgio Cabral – O rumo está traçado na valorização do professor em salários e qualificação. Vamos aprofundar isso, com as Casas de Professores, com a extensão de cursos à distância e também presenciais, informações e requalificação. No caso do aluno, haverá o estímulo do mérito. Vamos concretizar plano de metas com bônus. Na cidade do Rio de Janeiro e em algumas cidades do Grande Rio, vamos continuar enfrentando um drama: a oferta de Ensino Médio diurno. Quando nós chegamos, há 20 anos não se construía uma escola de Ensino Médio na cidade do Rio, mesma cidade que possui cerca de 280 escolas compartilhadas com a rede municipal, em que o Estado ocupa a noite para oferecer Ensino Médio. Uma vergonha. Nós já começamos, abrimos novas, mas ainda temos um gap nesse assunto. Temos uma meta, de pelo menos, nesses próximos quatro anos, construir cem colégios novos na região metropolitana do Estado do Rio de Janeiro. E vamos construir.

Repórter: E existe alguma política que não tenha dado certo, que seria substituída por outra ou adequada?

Sérgio Cabral – Não é que não tenha dado certo. É que não vimos uma maneira mais eficiente nesse controle sobre o colégio, de tal forma que não se perca autonomia, mas que o Estado se faça mais presente. É preciso afastar qualquer risco de influencia maléfica política, como também gestão maléfica. Porque quem paga esse preço é o aluno, com má alimentação, colégio mal cuidado.

Qual o papel que o candidato vê para a participação da sociedade civil e em especial para o investimento social privado no apoio à educação pública?

Pergunta elaborada por: Ana Lúcia Lima, diretora executiva do Instituto Paulo Montenegro

Fernando Gabeira – Importantíssimo. Desde 2008, tenho dito que não é possível resolver esse problema sem a participação da sociedade civil, da iniciativa privada. Em alguns casos, é possível um trabalho de co-gestão. A própria iniciativa privada poderia gerir algumas escolas, respeitando os programas e as diretrizes do governo.

Sérgio Cabral – Eu sempre digo que a melhor maneira é construir junto. Mas o problema é que nós trabalhamos com escola. Não podemos construir uma, duas, três ou quatro boutiques de colégio porque temos 1,3 mil escolas. Tenho elogiado muito os empresários Gilberto Sicupira, Jorge Gerdau e Gilberto Saião. A própria Fundação Victor Civita tem um trabalho bacana nessa área, que é pensar a política de Educação, na questão da gestão. É uma grande colaboração. É claro que cada um pode apoiar uma escola, doar ar condicionado, fazer uma obra. Isso é bacana. Mas acho que o mais interessante é o empresário pensar junto uma política de Educação, ajudar o Estado a se qualificar para a gestão.

Que ações são planejadas para estimular o compromisso da família no acompanhamento da vida escolar do aluno?

Pergunta elaborada por: Guilherme Weege, empresário, diretor da Malwee

Fernando Gabeira – As ações planejadas são, em primeiro lugar, uma tentativa da escola de discutir e dar poder de decisão também para as famílias. A segunda é uma tentativa de fazer com que, nos fins de semana, as escolas se tornem um espaço aberto para as famílias, crianças e adolescentes, aumentando o nível de convivência e a possibilidade de diálogo.

Sérgio Cabral – Isso é fundamental e temos hoje uma política de cartão inteligente para o aluno, que está sendo implantada. Esse cartão gera o benefício da gratuidade do transporte, obriga o aluno a passá-lo num computador. Cada sala de aula do Estado hoje tem um computador. É uma forma de controle do professor. Nós passamos inclusive torpedos para os pais, informando frequência, desempenho etc.

Que ações serão organizadas para implementar as escolas em tempo integral? Há interesse em ampliar a quantidade das unidades com essa modalidade de Educação?

Pergunta elaborada por: Guilherme Weege, empresário, diretor da Malwee

Fernando Gabeira – Ao invés de criar uma escola integral, vamos aumentar, em alguns casos, o tempo que as crianças ficam nas escolas primárias. No Ensino Médio, queremos que haja realmente mais possibilidades de ensino, uma combinação do ensino técnico, quando existir, ou do Ensino Médio com o profissionalizante, que possa fazer com que as pessoas fiquem mais na escola. De um modo geral, a experiência que a gente tem é que o Ensino Médio já deixa os alunos muito sobrecarregados por uma série de atividades. Então a idéia do integral nem sempre é aplicável para alunos do Ensino Médio, que já tem uma série de outras atividades.

Sérgio Cabral – Não tenha dúvida. Nós já temos 600 unidades escolares com o programa “Mais Educação” do Ministério da Educação, que é exatamente um programa de complemento do tempo do aluno.

O Rio de Janeiro e seus candidatos estão empenhados na luta contra a emenda Ibsen. Campos e São João da Barra, dois dos municípios mais beneficiados pelos royalties do petróleo, obtiveram as piores médias do Estado no Ideb. Como garantir que os recursos provenientes do pré-sal sejam revertidos na melhoria da Educação?

Fernando Gabeira – Uma diferença das minhas propostas no Rio de Janeiro para os que defendem os royalties é que eu só os defendo na condição de serem gastos com transparência. Nós temos aqui no Rio de Janeiro uma situação perversa. Os municípios mais bem aquinhoados pelos royalties, sobretudo Campos e Macaé, têm índices, tanto na Educação, como na saúde, piores do que os das cidades do noroeste, onde quase não se tem investimento do governo. Para se ter uma ideia, a iniciativa privada vai investir, na região norte, 13 bilhões de reais e, na região noroeste, apenas 800 milhões. Uma região realmente é bem mais pobre e, no entanto, sua Educação e tratamento de saúde são mais desenvolvidos.

Sérgio Cabral – Você não pode tirar recursos de uma cidade por conta da má gestão do administrador público. Na democracia, como é que a gente faz? Troca o gestor. Uma coisa é trocar o gestor por ele ser mau gestor e a população desaprová-lo e eleger outro. Outra coisa é você punir uma população que tem direito àqueles recursos. O que acontece é que, cada vez mais, é preciso fazer do recurso um recurso bem aplicado. Vou dar o exemplo do Estado do Rio. Durante todo o debate dos royalties, os congressistas foram unânimes em dizer que o governo estadual aplica muito bem os recursos. Dos 100% que nós recebemos por ano de royalties, 95% vão para a Previdência do Estado e 5% para o fundo estadual de conservação ambiental. Isso deu solvência ao Estado. O Estado do Rio de Janeiro é um estado solvente. Antigamente, para pagar o aposentado e pensionista do Estado, era uma loucura. Então o que nós fizemos? Nós pegamos esses recursos e colocamos no fundo de Previdência. O Estado não quebra. E os 5%, que vão passar a 10% com os recursos do pré-sal, vão para o meio ambiente. O que significa isso? De fato aplicamos no meio ambiente.

Qual é o projeto do senhor para a disciplina Educação Física Escolar?

Pergunta elaborada por: Jorge Steinhilber, mestre em motricidade humana, presidente do CONFEF (Conselho Federal de Educação Física)

Fernando Gabeira – Esse projeto está sendo discutido no Rio de Janeiro em função também da existência das Olimpíadas. A nossa intenção é desenvolver não só a Educação Física nas escolas, como fazer com que os alunos tenham mais possibilidade de praticar esportes. Sintonizar o ensino da Educação Física com a prática de esportes, estimulando a possibilidade de campeonatos inter-universitários, inter-escolares, que possam, de uma certa maneira, manter esse interesse. A nossa intenção é garantir a Educação Física em todas as escolas, sendo que muitas não estão preparadas fisicamente para isso. Temos que achar uma saída para essas.

Sérgio Cabral – Esse é o nosso desafio. Nós vamos ter, em 2016, as Olimpíadas. Nosso programa de governo para o próximo mandato é que cada unidade escolar tenha, no mínimo, a prática de uma modalidade olímpica. Se tiver ginásio, mais de uma. A maioria tem espaço, mas a que não tiver espaço terá a modalidade olímpica que se adaptar a essa condição.

A maioria das unidades escolares não dispõe de local adequado para o desenvolvimento de atividades físicas e esportivas. Qual o projeto para corrigir essa distorção?

Pergunta elaborada por: Jorge Steinhilber, mestre em motricidade humana, presidente do CONFEF (Conselho Federal de Educação Física)

Fernando Gabeira – O projeto é examinar essas possibilidades. Existe uma discussão aqui, de que existem muitos clubes falidos no Rio de Janeiro. Poderíamos propor convênios com esses clubes para utilizá-los também para a prática de esportes e Educação Física. Há muitos clubes que estão praticamente ociosos e que poderiam ser envolvidos nesse projeto. Além disso, há muitos equipamentos públicos também que foram construídos para o Pan-Americano e que serão construídos agora para a Copa do Mundo e Olimpíadas e que precisam de uso.

Sérgio Cabral – Onde der, vamos construir quadras. Já estamos fazendo isso. Continuar construindo quadras em todos os colégios que tenham possibilidade. Nós temos, inclusive, feito quadras no último andar como uma solução.

2 comentários:

Anônimo disse...

Cabral é a melhor opção para o Rio...Cabral já fez: Laboratório de informática em todos os colégios, 7.548 laptops para os melhores alunos. Até o fim do ano a rede estadual terá 30 mil novos professores, 72 mil laptops para os professores, 909 colégio reformados e com ar-condicionado, reposição das perdas salariais dos professores, 23 CVTs e 75 Cteps e escolas profissionalizantes e 400 mil jovens formados em cursos profissionalizantes desde 2007.

Anônimo disse...

fala ai eu estou em outro estado?
cabral o melhor. hahahahahahahahahahahahahaahaha