segunda-feira, 21 de março de 2011

Para estudante, Barack Obama ‘é quase branco’


Visita à Cidade de Deus encanta os poucos que conseguem vê-lo, mas decepciona quem foi barrado pela segurança


Aluno da Escola Municipal Pedro Aleixo e integrante do grupo de percussão que se apresentou para Barack Obama, Marcos Vinicius Silva, de 15 anos, chegou a uma conclusão sobre o presidente americano: “Achei que ele era mais preto. Mas ele é quase branco”, disse. Marcos chegou a ser abraçado por Obama quando foram fotografados na sede da FIA (Fundação para a Infância e Adolescência), único local que o presidente visitou na Cidade de Deus.

As ruas do bairro estavam ocupadas por soldados e atiradores de elite. No ginásio da FIA, havia, sob as cadeiras da família Obama, máscaras para serem usadas em caso de emergência. Apesar do pouco tempo de visita — 35 minutos —, o visitante se esforçou para ser simpático. Cumprimentou as crianças e chegou a bater bola com alunos de uma escolinha de futebol. Técnico do grupo, o sargento PM Orlando Luiz Muniz dos Santos disse que o presidente levava jeito para o futebol. A avaliação não foi compartilhada por quem participou da troca de passes.

A atividade funcionou como prêmio de consolação, já que o roteiro original previa um bate-bola em uma quadra. Cada um dos meninos ganhou uma bola oficial. Outro que estava feliz era o pintor Daniel Martinelli, que expôs seus quadros no ginásio da FIA. Todos foram vendidos, um deles, para um funcionário do governo americano.

A chegada de Obama frustrou quem subiu em lajes para esperá-lo. Assim que entraram na sede da FIA, os carros da comitiva foram cobertos por uma cortina. “Very deception!”, protestou uma moradora, tentando dizer que estava muito decepcionada. Mas, na saída, Obama saiu do prédio e deu uma caminhada de 20 segundos pela rua. Foi recebido com novos gritos: “Lindo!”, “Obama, eu te amo!”

Batizada de “Evento Cultural”, a atividade se resumiu a duas breves apresentações: a dos percussionistas e a de um grupo de capoeiristas. Obama e a primeira dama Michelle — vestida de verde e amarelo — chegaram a marcar o ritmo com movimentos de cabeça e de pés.

Obama, Michelle e as filhas Malia e Sasha foram saudados por Giuglia Seiffert, de 14 anos, escolhida por ser, entre os alunos da Pedro Aleixo, a única a ter boas noções de inglês. Mas a jovem, moradora da Pechincha, admitiu que aprendeu o idioma numa escola particular, que deixou há dois anos quando foi matriculada na rede municipal.

No trajeto percorrido pela comitiva de Obama na Cidade de Deus era difícil ver um papel no chão. O campo de futebol da Praça da 15 recebeu grades novas; a quadra de basquete, redes na cesta e mastros com as bandeiras do Brasil e do Rio de Janeiro hasteadas. Tudo limpinho.
 
Um quarteirão depois, a realidade da comunidade não tinha como ser escondida. Lixo por toda parte, porcos andando entre as crianças que brincavam nas ruas. “Fizeram uma maquiagem. Assim que ele virar as costas, será tudo como antes”, desabafou o servente Celso Ferreira, 42. 

A dona de casa Juracy Gonçalves reclamou do lixão do Caratê. Seus netos vivem doentes, mas nem no dia da visita de Obama ela se beneficiou. Lá continuaram os bichos mortos, porcos e a montanha de dejetos espalhando doenças.

O Dia

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